Diário de Bordo

R$ - Real, US$ - Dólar e $ - Peso Argentino
Cotação do dólar na época da viagem: US$ 1 = R$ 2,95 e US$ 1 = $ 2,95 (o real e o peso tinham exatamente o mesmo valor)

DIA 1 (19/12/2003)

Saí para Curitiba pela BR-116 e depois fui sentido Passo Fundo pelas BR-476 e BR-153.
Após Curitiba, as condições das estradas são péssimas, com pouca sinalização e tráfego intenso de caminhões durante todo o trajeto.
Fora do estado de SP encontrei apenas um pedágio no Paraná: R$ 3,20.

DIA 2 (20/12/2003)

Segui para Uruguaiana para cruzar a fronteira da Argentina pela BR-285, que está em péssimas condições, tamanha a quantidade de buracos.
Passei por dois pedágios no RS no valor de R$ 3,30 cada um.
Na fronteira, é necessário declarar todos os equipamentos eletrônicos (notebook, máquina fotográfica, filmadora, etc).
Além do RG, apenas a carta de motorista e o documento do veículo (devem estar preferencialmente no mesmo nome) são necessários para entrar na Argentina.
O processo é um tanto burocrático, e perde-se tempo com toda a tramitação.
Logo no primeiro posto da rede YPF (assim que se atravessa a fronteira) comprei o Guia YPF ($ 55,00 e um dos melhores guias rodoviários disponíveis).
Para variar, fui parado pelo posto da polícia rodoviária na província de Entre Rios, que alegava irregularidas no engate traseiro do carro. Um senhor do posto de combustível logo depois dos policiais me disse que praticamente todos os carros do Brasil são parados. Precisei "acertar" com o policial para poder seguir viagem (US$ 60). Quase morri de raiva, pois descobri na volta que por bem menos eles ficam felizes (R$ 20,00 !!!).
Segui pela Ruta 14 até a pequena cidade de San Jose, onde passei a noite numa hospedaria muito simpática.
A condição da estrada, apesar de pista simples, é muito boa (muito diferente do Brasil) !
Passei por dois pedágios na Ruta 14 até San Jose: $ 2,20 e $ 1,60.

DIA 3 (21/12/2003)

Segui para Buenos Aires pela Ruta 14 e depois peguei a Ruta 12.
Atravessar Buenos Aires não é difícil, mas um pouco confuso, pois existe pouca sinalização para a Ruta 3. O Guia YPF que comprei ao entrar na Argentina me ajudou muito neste caso.
O início da Ruta 3 é todo por dentro de cidades, que faz o tempo da viagem aumentar bastante.
Depois segui para Tres Arroyos, onde passei a noite num "Hotel Cassino" às margens da rodovia.
Passei por 5 pedágios neste trajeto: $ 3,20, $ 5,90, $ 1,90, $ 2,90 e $ 2,10.
Encontrei também a primeira placa indicando a cidade de Ushuaia a 2.859 km de distância !

DIA 4 (22/12/2003)

Parti logo cedo para Puerto Madryn pela Ruta 3. Foi o dia mais cansativo da viagem até agora, pois a rodovia começa a ficar mais deserta à medida que avançamos.
A travessia pela cidade de Bahia Blanca tem pouca sinalização, mas é fácil encontrar a Ruta 3 novamente, caso se perca.
O vento começa a ser percebido na viagem. Fortes rajadas obrigam a corrigir a posição do carro a todo momento.
O início oficial da Patagonia Argentina é o Rio Colorado. Um pouco antes desse ponto fica a primeira barreira fitosanitária da Argentina (existem mais duas até Puerto Madryn). Todas as frutas e produtos de origem animal podem ser confiscados para controle da "mosca da fruta" e da "febre aftosa". Perdi minhas maçãs nesta barreira.
Passei por 2 pedágios neste trajeto: $ 2,20, $ 3,00.
A entrada da cidade de Puerto Madryn é muito bonita e vale algumas fotos. Avista-se toda a cidade pelo alto e mais o belo porto.
Por ser uma cidade turística, vale a pena realizar uma pesquisa de preços pelos hotéis. Um passeio pela rua da praia, no centro da cidade, é muito revitalizador.

DIA 5 (23/12/2003)

Fiquei em Puerto Madryn para conhecer toda a Península de Valdes, incluindo a cidade de Puerto Piramides.
A entrada na reserva da Península custa $ 25,00 por pessoa, mas vale cada centavo pago. Só este passeio já valeria toda a viagem !
Resolvi percorrer toda a Península, iniciando por Punta Delgada - onde existe um farol e uma praia repleta de elefantes marinhos, depois a Pinguinera Caleta Valdes - onde se chega a menos de meio metro dos pinguins, Punta Norte - repleta de lobos e elefantes marinhos e por fim a cidade de Puerto Piramides.
Tive meu primeiro contato com o famoso rípio, já que toda a volta da Península é feita por estradas deste tipo. Nada de muito diferente das estradas de terra e pedras do Brasil, mas que necessita cuidados e atenção redobrada.
Entre Puerto Madryn, a volta toda da Península e o retorno à cidade são mais ou menos 400 km.
Em Puerto Piramides, encontrei um carro de Santos.
Descobri que não existe tomada de 110 V na Argentinha, assim precisei comprar um adaptador 220-110 V ($ 15,00 e achei bem fácil).

DIA 6 (24/12/2003)

Saí em direção à cidade de Comandante Piedra Buena. Como o dia estava bonito (a luz já começa a ficar até mais tarde) resolvi não parar em Piedra Buena e seguir até Rio Galegos, que é a última grande cidade antes da fronteira com o Chile. Isso adiantaria minha chegada até Ushuaia no dia seguinte. Foi o dia em que mais fiquei na estrada: quase 1.300 km e também foi o mais cansativo.

DIA 7 (25/12/2003)

Parti enfim para meu destino principal: Ushuaia. Passei por 4 aduanas: saída da Argentina pelo continente, entrada no Chile pelo continente, saída do Chile pela ilha e entrada na Argentina pela ilha. Todo esse processo levou muito tempo, pois havia muitos turistas fazendo o mesmo processo - a maioria brasileiros.
Encontrei uma turma de motoqueiros vindos de São Paulo e Guarulhos que também iam para Ushuaia.
Consegui pegar a primeira balsa do dia (08:30 hs) para atravessar o Estreito de Magalhães. Como optei por atravessar de Punta Delgada até Bahia Azul, fiz a menor distância possível, pois nesse trecho o Estreito tem menos de 5 km. A Balsa leva aproximadamente 20 minutos na travessia e custa US$ 17 por carro.
Olhar para um lado e ver o Oceano Pacífico e para o outro ver o Oceano Atlântico é muito bonito.
A cidade de Ushuaia é a única cidade transandina da Argentina, ou seja, fica após a Cordilheira dos Andes. Isso significa que para chegar à cidade é necessário cruzar as montanhas da Cordilheira. Os últimos 200 km antes de se chegar a Ushuaia são de tirar o fôlego. São tantos lugares para se fotografar que percorrer essa distância é bem demorado.
Finalmente, depois de exatamente 6.215 km de estradas cheguei a USHUAIA !!!

DIA 8 (26/12/2003)

Fui conhecer a cidade e o Glacial Martial (sobe-se de teleférico - $ 7 por pessoa - ou a pé - mais ou menos 30 min. - até o início da caminhada pelo Glacial)

DIA 9 (27/12/2003)

Fiz o passeio de Catamaran (um tipo de barco) pelo Canal de Beagle ($ 60 por pessoa). Utilizei o pessoal do barco "Canoero", e o passeio dura aproximadamente 3:30 hs. Visita-se o Farol (que não é o "Farol do Fim do Mundo", famoso pelo livro de Julio Verne - este se encontra a mais ou menos 150 km de Ushuaia), a Ilha dos Lobos (onde se fica a menos de 3 metros dos lobos marinhos). a Ilha dos Pássaros e a Ilha Bridges (onde é possível realizar uma caminhada de 20 minutos).
A tarde fui conhecer a Estância Harberton, local onde se iniciou a colonização da Terra do Fogo (é uma verdadeira aula de história).

DIA 10 (28/12/2003)

Conheci o Parque Nacional da Terra do Fogo ($ 12 por pessoa). É interessante tirar um dia todo para caminhar pelo parque, já que é uma das melhores atrações de Ushuaia. A "Bahia Lapataia" é linda, e nela se encontra a famosa placa do final da Ruta 3, o último local no continente americano possível de se chegar por carro. A partir daí, somente mar, gelo e pinguins.
Na "Bahia Ensenada" fica a última agência postal do continente americano, e por $ 3 é possível estampar o passaporte como lembrança da região.

DIA 11 (29/12/2003)

Saí de Ushuaia às 05:00 hs para chegar o mais cedo possível em El Calafate, pois ainda tinha que pagar um passeio já contratado no Brasil. Perdi a segunda balsa no Estreito de Magalhães por 10 minutos (culpa do rípio, pois nas quatro aduanas até que foi rápido desta vez). Esperei então até as 12:15 hs pela terceira balsa. Em Rio Galegos deixei a Ruta 3 e segui por mais três rodovias (todas pavimentadas) até El Calafate. A cidade é bem pequena (cerca de 2.300 habitantes), bem estruturada para o turismo, mas muito cara. Vale a pena procurar o Centro de Informações ao Turista antes de se contratar algum passeio de uma agência.

DIA 12 (30/12/2003)

O dia todo fiz um passeio da empresa chamada "Upsala Explorer" (US$ 105 por pessoa mais $ 20 para se entrar no Parque Nacional). Naveguei em meio aos Icebergs no gigantesco "Lago Argentino", parei em frente ao Glacial Upsala (o segundo maior da Argentina, com 900 km2 de extensão, que se atinge depois de 2 horas de navegação) e fui almoçar e fazer trekking na Estância Cristina, também só possível de se chegar por barco (mais uma aula de história da região).

DIA 13 (31/12/2003)

Logo pela manhã fui ao Parque Nacional "El Glaciares" ($ 20 por pessoa) conhecer o Glacial Perito Moreno (o único Glacial que não está diminuindo de tamanho). Através das passarelas pode-se chegar muito perto da parede do Glacial, que mede até 60 m de altura. Vale a pena ficar algumas horas nas passarelas, pois pode-se avistar blocos de gelo se desprendendo do Glacial e caindo no lago. O barulho destas quedas é impressionante. Parece um edifício desabando numa implosão. A sensação de se estar tão próximo a um espetáculo tão grandioso da natureza é indescritível. Não havia forma melhor de terminar o ano.
Abri uma garrafa de champagne e fiquei observando os fogos de passagem de ano pela janela do hotel.

DIA 14 (01/01/2004)

Após o café segui para a cidade de El Chaltén, considerada a Capital Nacional do Trekking. São mais de 200 km de viagem (a grande maioria por estradas de rípio). É uma viagem que recomendo bastante, pois as paisagens de todo o percurso são cinematográficas.
El Chaltén é um pequeno povoado de aproximadamente 350 habitantes. Para quem gosta de caminhar este é o local ideal.
Procurei o Centro de Informações ao Turista, que fornece mapas, todas as informações sobre as trilhas e o que se fazer na cidade, que fica no pé de duas montanhas muito famosas: Cerro Torre (considerada a montanha mais difícil de se escalar no mundo, com 3.102 m de altura) e Cerrto Fitz Roy (com mais de 3.405 m de altura). O nome Fitz Roy vem do capitão do navio Beagle, que trouxe Charles Darwin à região e que teria sido o primeiro a avistar a montanha.

DIA 15 (02/01/2004)

Contratei uma das quatro agências da cidade (Vivendo Mantañas) e fui fazer trekking sobre o Glacial Torre ($ 125 por pessoa). São mais de 12 horas de caminhadas e aproximadamente 3 horas sobre o Glacial. A partir do acampamento base, são diversos tipos de terrenos: subidas, descidas, pedras, areia, terra, barro e riachos (até um rio se atravessa através de uma "tirolesa").
Sobre o Glacial se faz um lanche (que na realidade é o almoço do dia) e se aprende técnicas de caminhada e escalada sobre o gelo. Caminhar com grampões nos pés é muito divertido.
Neste ponto se chega praticamente à base do Cerro Torre, proporcionando paisagens e fotos incríveis. O dia termina e é praticamente impossvél andar de tamanho cansaço pelo esforço físico. Mas tudo isso vale a pena. Foi o passeio mais emocionante que tive em toda a viagem !

DIA 16 (03/01/2004)

Aproveitei o dia para descansar e tirar algumas fotos da região.

DIA 17 (04/01/2004)

Começa oficialmente meu retorno para casa. Saí de El Chaltén direto para Cmtde. Luis Piedrabuena, onde se retorna à Ruta 3. Foi o dia em que mais andei no rípio: cinco horas ! Já na Ruta 3 segui para Comodoro Rivadavia onde passei a noite,

DIA 18 (05/01/2004)

Segui para Camarones e Punta Tombo, já que a ansiedade de chegar em Ushuaia me fez passar direto no caminho de ida.
Camarones é uma cidade bem pequena mas repleta de histórias. No Centro de Informações que fica na prefeitura da cidade, uma jovem muito simpática nos contou que foi na costa de Camarones que chegaram os primeiros espanhóis à Argentina, em 1535. Existe também a casa onde morou o ex-presidente Peron até seus 18 anos de idade. Fui então para a Reserva Faunística ($ 15 por pessoa), onde existe uma grande pingüinera. Como até agora não havia visto nenhuma grande colônia de pingüins, fiquei impressionado. Logo a frente da pingüinera existe uma ilha onde vivem alguns lobos marinhos (é necessário binóculos para observá-los).
De Camarones à Punta Tombo existe uma estrada de rípio em boas condições mas praticamente deserta.
Logo na entrada da Reserva Faunística de Punta Tombo ($ 15 por pessoa) já se avistam alguns pingüins, mas caminhando um pouco mais é que se impressiona de verdade: existem mais de 250 mil pingüins nesta reserva ! É a maior reserva em terras continentais do planeta !
Até o estacionamento é necessário dirigir bem devagar e com muita atenção, pois eles atravessam a frente do carro a toda hora ! É possível caminhar entre eles, seus ninhos, seus filhotes e observá-los entrando e saindo do mar. São horas de fotos e encantamento.
Fui para a cidade mais próxima (Trelew) descansar para o dia seguinte.

DIA 19 (06/01/2004)

A partir de agora somente estradas até minha casa. Todos os passeios e lugares programados para a viagem já foram feitos. Agora sim dá para entender porque a Patagônia foi eleita por pessoas como Almir Klink, família Schurman entre outras como o local mais bonito do planeta. Foram dias vividos com muita intensidade, realmente inesquecíveis !
Saímos de Trelew logo cedo com destino a Azul. Queríamos estar o mais próximo possível de Buenos Aires, para tentar no dia seguinte já atravessar para o Brasil.
Foi a primeira vez que precisei dar manutenção no carro: completar  em 1/2 litro o óleo do motor.
Logo após Bahia Blanca, peguei uma tempestade de gelo que me assustou muito. As pedras de gelo pareciam que iriam quebrar todos os vidros do carro. Fiquei parados atrás de algumas árvores junto com outros veículos até a chuva diminuiu.
Passei por um pedágio neste trajeto de $ 2,20.

DIA 20 (07/01/2004)

Peguei a Ruta 3 em direção à Buenos Aires quando um policial me parou alertando sobre um acidente com um caminhão 6 km à frente. Como a rodovia ficaria interrompida, fui obrigado a seguir pela Ruta 51 e Ruta 205 até Canuelas. Como não queria atravessar por dentro de Buenos Aires, peguei a Ruta 06 até Campana e depois através da Ruta 09 cheguei à Ruta 12, contornando assim toda a cidade. O pavimento da Ruta 06 está bem ruim, mas vale a pena, pois perde-se muito tempo para cruzar a capital.
Para variar, fui vítima novamente da "famosa" polícia rodoviária de Entre Rios. Assim como na ida, precisei "colaborar" com os polícias para poder seguir viagem. Como já estava mais acostumado com tal situação, o valor saiu bem mais em conta desta vez (R$ 20,00 - isso mesmo, eles aceitam Real !!!). Também minha técnica de somente falar português com o policial ajudou bastante - era um tal de "não compreendo" pra cá e prá lá.
Cheguei à Uruguaiana no final da tarde, e precisei da colaborarção dos garotos que auxiliam os turistas na aduana para poder agilizar minha saída da Argentina, tamanha era a quantidade de pessoas para fazer a imigração.
Passei por 06 pedágios neste trajeto: $ 1,50, $ 1,70, $ 5,90, $ 2,30, $ 1,60 e $ 1,60.

DIA 21 (08/01/2004)

Saí cedo de Uruguaiana para tentar chegar o mais próximo possível de Curitiba, última parada antes da chegada em casa. Para variar, a quantidade de caminhões e as péssimas condições das estradas atrapalham bastante este trajeto. Utilizei o novo anel viário que passa por fora de Curitiba, e às 22:30 h parei num hotel de posto de combustível às margens da BR-116, pois já estava bem cansado.
Passei por 04 pedágios neste trajeto: R$ 4,50, R$ 4,00, R$ 2,30, R$ 3,70.

DIA 22 (09/01/2004)

Apesar da inesquecível viagem, já não via a hora de retornar. E assim, depois de 22 dias de pura aventura e muita história para contar, cheguei a Araraquara !


Volta