
Ushuaia, a cidade do fim do mundo
Quando em 1520 o navegador português Fernão de
Magalhães cruzou pela primeira vez o estreito que hoje leva seu nome, vendo à
sua direita o continente sul-americano mergulhar no oceano e à esquerda uma ilha
de enorme extensão, inspirado pelo grande número de fogueiras indígenas que
brilhavam ao longo da costa resolveu batizá-la de Terra do Fogo.
A história dos séculos seguintes intercala uma trágica e contínua campanha de
exterminação da população indígena para dar lugar às estâncias de ovinos com
grandes corridas em busca do ouro, piratas, naufrágios, explorações e uma guerra
que quase foi declarada entre Chile e Argentina na década de 80 pela disputa do
Canal de Beagle.
Cobiçada ainda mais pelos aventureiros modernos, hoje armados apenas de mochilas
e câmeras fotográficas, a Terra do Fogo é um território coberto de campos
ondulados, bosques, geleiras e montanhas, dividido ao meio entre Chile e
Argentina e separado da massa continental pelo Estreito de Magalhães.
Constituindo uma extensão com grandes porções ainda selvagens, são muitos os
pontos onde a presença humana não conseguiu sobrepor-se ao ambiente
constantemente varrido pelos gélidos ventos que sopram desde o pólo muitas vezes
com força de furacão.
Antes de tudo e todos, viviam tranqüilamente por lá os índios yámanas, e foram eles que batizaram o lugar por algo que aos espanhóis soou como Ushuaia (se pronuncia Ussuáia) e que queria dizer “baía que penetra até o poente”. O resto da história é previsível: os índios foram dizimados e Ushuaia ficou esquecida até que há pouco mais de cem anos recebeu a ocupação clássica dos lugares remotos, a colonização penal, num presídio que funcionou até 1947. O farol que inspirou Julio Verne a escrever “O Farol do Fim do Mundo” fica perto da cidade.
Ushuaia é cercada pela Cordilheira dos Andes, que desabam no oceano formando fiordes.
A cidade do fim do mundo fica numa ilha do sul da Argentina, no extremo da província da Terra do Fogo, na fronteira com o Chile, a mil quilômetros da Antártida. É a cidade mais austral do planeta. Quase polar, ela está cercada pelos Andes, que lá desabam no oceano formando fiordes como os da Noruega, picos de neves eternas como nos Alpes, glaciares, icebergs e ilhas habitadas por multidões de gaivotas, leões-marinhos e pingüins. Está localizada à beira do canal Beagle, onde fica o Farol do Fim do Mundo, que inspirou o romance de Júlio Verne, e hoje tem um dos mais impressionantes complexos de esqui do mundo. No inverno, a região rivaliza com Bariloche e Las Leñas, as estações de esqui mais próximas conhecidas pelos brasileiros, com as pistas de neve fofa do Alasca e do Canadá e com as paisagens dos Alpes europeus.
Em Ushuaia, a paisagem é sempre fantástica, com a grande Cordilheira dos Andes desabando no mar num movimento abrupto de 90º na direção leste (Ushuaia é a única cidade transandina da Argentina, pois todas as outras situam-se à direita dos Andes e essa fica à esquerda, depois deles). São os cumes dessas montanhas que formam os estreitos golfos e canais marítimos (fiordes) onde se refugiaram belas e diversificadas formas de vida. Os bosques entre as montanhas, que no inverno estão cobertos de neve, de repente, na primavera, a partir de outubro, revestem-se de flores de rara beleza, só encontradas nessa região do mundo, muito pouco percorrida pelo homem.
Por causa das nevascas e do clima inóspito, que afastaram os predadores humanos, a região abriga os únicos e últimos bosques antárticos do planeta, testemunhos de um mundo que esfriou, onde vivem animais como o guanaco, um tipo de lhama pequeno, e o zorro patagônico, um tipo de raposa. Lá existem árvores como o calafate, de porte arbustivo, que começa por produzir suas belas flores amarelas, seguidas por deliciosas frutas azuis, colhidas em fevereiro.
Outra árvore típica é a "lenga", que forneceu a madeira com que os índios faziam suas fogueiras de 10 mil anos para cá (daí o nome Terra do Fogo), e que o homem branco quase extinguiu em pouco mais de cem anos, desde que começaram a chegar militares da Marinha (por causa da importância estratégica do local para a navegação entre o Atlântico e o Pacífico) e foi construído um presídio, cujas condições inóspitas num inferno de gelo apavoravam os criminosos argentinos do começo do século.
No inverno, a cidade é coberta pela neve e pelos amantes dela, que esquiam no Cerro Castor, patinam em lagos congelados e andam em trenós puxados por cachorros de neve. O sol austral, entre os meses de novembro e abril, faz os dias de verão inacreditavelmente longos, com quase 20 horas. Esta é a melhor época para os esportes de natureza, como caminhadas, biking e canoagem em caiaques infláveis. Alguns podem ser feitos no Parque Nacional da Terra do Fogo, um recanto de bosques silenciosos, baías e ilhas, a 12 km da cidade. Pelos seus bosques vivem milhares de coelhos e famílias de castores. Estes últimos foram trazidos do Canadá para exploração de sua pele e hoje chegam a ser considerados uma praga, tamanha a quantidade.
Onde fica ...
